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Informação

 Private capital tends to become concentrated in few hands, resulting in an oligarchy of private capital the enormous power of which cannot be effectively checked even by a democratically organized political society.     Moreover, under existing conditions, private capitalists inevitably control, directly or indirectly, the main sources of information including the press, radio, and education.     It is thus extremely difficult, and indeed in most cases quite impossible, for the individual citizen to come to objective conclusions and to make intelligent use of his political rights.     ~ Albert Einstein, 1949  A informação é preciosa. Sem informação de qualidade não podemos raciocinar e compreender o mundo. No tempo em que estamos não há informação confiável. O trabalho de procurar agulha em palheiro desanima.  Mas algumas coisas podemos ver. Podemo-nos aperceber de que a informação é uma arma e que a guerra lança mão de todas ...

O Quinto

Portugal foi um império marítimo, D. Manuel foi "senhor da conquista, navegação e comércio de Arábia, Persa e India". E na conquista foi morrendo o sonho. O menino imperador das festas do Espírito Santo era o sonho de uma fraternidade universal, de uma alegria tranquila, da paz universal. Não foi a loucura de D. Sebastião, nem os mouros de Alquácer-Quibir, nem os filipes de Espanha, quem derrotou o sonho. Nem mesmo foi a Inquisição, o seu principal adversário, nem a mundana Roma. Nem foram os herdeiros do império marítimo, os ingleses, com Bombaim (hoje Mombai) entregue como dote de Catarina, a princesa portuguesa que foi rainha de Inglaterra. Os sonhos não morrem. Ainda hoje há festas nas ilhas e no Brasil, mas o que importa é que todo o mundo quer a paz universal e a fraternidade.  É certo que o na cionalismo universalista  dissolve com facilidade a nacio nalidade. Mas vale mais uma vida curta e grande que uma  vida longa e baixa. Uma pedra dura muito mais que um homem,...

O medo

 A fala e a escrita são materializações do pensamento, nunca tão claras como ele, com as suas sombras, que realçam o que ilumina.  Há um número infinito de pontos de vista sobre cada assunto, se é que se pode separar cada assunto do "todo" de "assuntos". O pensamento é o limitado instrumento da nossa limitada mente para dar sentido ao mistério. Se usarmos o critério da eficácia para o nosso bem-estar, físico e psíquico, há pensamentos melhores que outros. A ideia de que o medo é útil é útil mas opõe-se à ideia de que não convém ter medo. Esta última é mais útil, embora, como sempre, a verdade esteja no paradoxo, na complexidade do todo. Há trabalhos que nos mostram, até com a descrição do mecanismo químico, como o medo prolongado, o "stress", prejudica o corpo. O prejuízo psíquico é evidente, a liberdade de pensamento sofre. Não é preciso ser católico, muito menos acreditar nos dogmas, como na polémica ideia, mesmo para os crentes, da infalibilidade papal,...

Breve história da democracia | MARILENA CHAUI

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Angústia

    Meter medo, intimidar, estraga o convívio humano. A vida não é uma luta. Pelo menos não é uma luta com a vida, com as plantas, os animais e, neles, com a nossa espécie. A vida pode ser vista como luta com a morte. A sobrevivência é, porém, muito pouco para caracterizar a vida; sobreviver é evitar a morte; feito isso há que viver o grande mistério. E, na angústia diante do mistério da vida, reduzi-la a uma luta pela sobrevivência é um recuo que se assemelha á morte. É perder, na luta pela vida. Adenina, timina, guanina e citosina, A, T, G e C, as letras com que o ADN escreve as infinitas formas da vida, são letras com que pode escrever uma amiba ou um Mozart. Para criar as suas formas mais complexas, a vida não precisa de eliminar as amibas. Nem as amibas precisam, para existir, de eliminar os humanos geniais. Somos parentes, usamos a mesma linguagem dessas quatro letras, dispostas três a três; não somos inimigos. Mas a vida pode levar a situações paradoxais. Um dos descen...

Maioria

   Para Platão, a chave do sucesso da democracia ateniense, que durou cerca de duzentos anos, era o sorteio. O grande risco da democracia é a oligarquia, o governo por "uns poucos", "oligos", os mais ricos. 10% dos cidadãos eram sorteados para estar na Ágora, discutindo as leis, de cada vez que havia Assembléia. Da discussão pública resultava um consenso, dificilmente resultaria uma lei que fosse beneficiar apenas os mais ricos. Só nos casos em que se não conseguia ver, com clareza, qual das opções seria a do interesse da cidade, se votava. Os cidadãos, conscientes, sabiam, quer a sua opção tivesse tido maioria ou não, que o voto de um recurso prático se tratava, que não correspondia, necessariamente, à melhor escolha para a cidade. Novas assembléias e novos argumentos aproximariam a lei do desejado consenso. Ninguém se lembraria de tomar a maioria por sinónimo de Verdade.  Os cargos públicos eram escolhidos por sorteio. Se o cidadão sorteado agisse de forma suspeit...

Nacionalismo

 " Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso ".  Os povos têm seus usos, suas leis, criadas ao longo da sua história. O diálogo com outras culturas é enriquecedor e criador de civilização. Mas a submissão pela força é outra coisa. Há, nos povos que foram forçados a usar leis de outros, um sentimento ferido que espera o momento de se manifestar. Mesmo quando integram, à sua maneira, valores que lhes eram estranhos, todos os povos, todas as culturas, aspiram a ter soberania, condição para serem independentes, condição para serem interdependentes, condição para realizarem os seus sonhos. Se esses sonhos incluirem a glória de impor as suas leis a outros povos, estes defender-se-ão e guardarão sempre, se dominados, o desejo de ser independentes. Há cerca de um século apareceu a ideologia fascista, em Itália, uma forma de aproveitar o sentimento nacionalista para fins políticos. Foram estimuladas emoções irracionais e, na sua forma alemã, o nazismo, as consequências foram cata...

Astrologia

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                                                               O céu ao meio-dia de hoje   A Astrologia, como a conhecemos, terá começado há uns quatro mil anos, na Mesopotâmia.  Muito divulgada entre gregos e romanos cultos, foi codificada por Ptolomeu, em Alexandria, mas a Igreja Romana, não a sabendo integrar nos dogmas, deixou-a esquecida para alguns sábios discretos. Com o Renascimento, renasce a sua popularidade.   Quando escreve "erros meus, má fortuna, amor ardente", Camões começa por dizer que tem livre-arbítrio, que é responsável pelos seus "erros"; "má fortuna" refere-se a Saturno no Céu de quando nasceu, no seu horóscopo, o planeta que simboliza a exigência, a...

Analogia

 O nosso tempo talvez seja análogo ao de há 500 anos, quando temíamos a Inquisição, Imagino que a maior parte a não temia, pois acreditava na versão oficial do Cristianismo, mas judeus e árabes, que tinham sido baptizados à força, sim, temiam-na. Não me lembro de o nazareno ter ameaçado as pessoas com o inferno, com as chamas eternas. Roma fez esse e outros acrescentos (e supressões) ao que ficara da memória desse sábio e institucionalisou o inistitucionalisável, fez uma religião, uma seita universal, fora da qual não havia salvação. Todos temiam estar fora dela, como os atenienses temiam o ostracismo, a expulsão da cidade por dez anos; mas aqui, com a excomunão, a expulsão era para sempre e a morte era a mudança de residência para as chamas eternas. Não me lembro de a ciência ter dogmas, de as pessoas temerem o castigo de neles não acreditarem. O nosso tempo pegou na ciência, um acumular progressivo de conhecimento deste mundo material, com o método científico, as teorias provadas...

As dificuldades

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 Para os democratas, que estão conscientes de que vivem em oligarquia, de que o poder político, nas nossas "democracias", com Constituições que integram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, está nas mãos de um punhado de bilionários, o caminho para a democracia tem que ser construído, nem mesmo existe. E o número de cidadãos conscientes parece diminuir, em vez de crescer. Neste momento, aproveitando o medo criado à volta do vírus respiratório do Inverno de 2019, não tão mais perigoso que os que vão aparecendo todos os anos, prepara-se, e não só em Portugal, um golpe mortal nos Direitos Fundamentais, uma revisão constitucional que, em vez de configurar um progresso, configura um retrocesso da nossa Civilização, que tem raízes na Democracia Ateniense. Se nos não defendermos, se nos não informarmos, se não sacudirmos o medo com que contam para que achemos normal passar de cidadãos a escravos, farão, nas nossas costas, uma espécie de tirania sanitária, perfeitamente legal...

A independência

 Quem se não lembra do primeiro ordenado, da primeira casa? Também para os países se trata de um valor fundamental, a independência, "assegurado" pelas Nações Unidas, algo que só é verdadeiramente possível sendo o país muito grande ou tendo uma rede de parceiros comerciais bem montada. Depois de ser independente, convém ser interdependente. Se for antes, ser-se-á dependente. Portugal não é independente, "pertence" ao império anglo-americano; e a forma como lidamos com essa frustração é, habitualmente, negando-a. Fingimos não saber o que seja o império financeiro, senhor da moeda de referência no mundo, capaz de mergulhar a Europa em inflacção, por exemplo, se isso interessar à expansão do seu controle sobre os outros países. A revolução laranja na Ucrânia, que esse império financeiro criou, em 2014, comprando propaganda e pessoas, na sequência de uma velhíssima "não guerra" com o império russo, apadrinhando aí um governo de extrema-direita e as suas provoc...

A tolerância

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Dantes a tolerância parecia-me sobranceria e defendia a aceitação e o respeito por quem pensa e age de formas que nos parecem inaceitáveis. Com o tempo, talvez com os pés mais assentes na terra, mais consciente dos nossos limites, valorizo a tolerância, virtude essencial para a convivência, no mesmo planeta, de tantas civilizações diferentes. Continuo a respeitar as pessoas que dizem os disparates mas há ideias que não consigo respeitar, posso tolerar, e é bem preciso: o ainda presidente do Brasil disse que foi pena os brasileiros não terem eliminado os índios, como os americanos quase conseguiram, e ainda haver umas dezenas de milhões de primitivos; ou teve a ideia de levar o país a uma guerra civil, ao não aceitar com clareza e imediatamente o resultado das eleições. Os brasileiros, divididos ao meio, precisam mesmo de cultivar a tolerância, de um lado e do outro. Sem ela, mesmo que se não guerreiem, o país funcionará mal. Sem a tolerância não há diálogo, só vemos o assunto que não t...

O medo

 Todos conhecemos o medo, coisa bem desagradável. Instinto que partilhamos com os outros animais, dizem que é útil, que nos defende de nos queimarmos, nos diz que nos afastemos do fogo.  Mas, animais racionais, sabemos que o fogo queima e não precisamos dessa emoção tão primária. Sabendo que queima, em certas circunstâncias, podemos escolher correr esse risco, se isso nos for útil, ou livrar outros de se queimarem. Chama-se coragem, a essa "loucura", a dos bombeiros que salvam pessoas, por exemplo. Uma coisa sabemos, desta contradição entre o medo e a razão: tanto um como outra podem ganhar, no nosso espírito. Uma escolha nossa. A favor da razão diria o desastre para o corpo que é a vitória do medo: todos os órgãos sofrem e a morte é possível, o coração pode parar com o medo, a respiração ser um sofrimento, as infecções, os cancros, aparecerem; é bem real e conhecido. Porque o escolhemos, tantas vezes, abandonando a razão? Suponho que imaginamos seja possível voltar atrás, pa...

Guerra

As sociedades saudáveis evitam a guerra, usam a diplomacia e resolvem os diferendos com os vizinhos. Dão autonomia às regiões que, por diferentes, a pedem, ou permitem mesmo, em referendo, que essas regiões fiquem independentes e escolham o seu caminho.  Mas uma sociedade insegura, com uma identidade dividida, com privilégios mal aceites, com pobreza e corrupção, pode desenvolver um nacionalismo "paranóico", fascistóide, que escolhe a guerra, em desespero de causa. As fronteiras nem sempre correspondem à realidade humana e histórica, são resultantes de guerras passadas. E a convivência de povos diferentes dentro do mesmo Estado pode ser origem de paixões guerreiras, de situações em que se perde de vista o essencial -- a paz-- e se escolhe, emocionalmente, a guerra. Ao pedir ajuda à sua ex-colónia americana para derrotar Hitler, o Império Britânico deixou de ser o único senhor dos mares, ficou à sombra dos Estados Unidos da América mas estes caíram nas mãos de uma oligarquia i...